terça-feira, 27 de outubro de 2009

Anúncio narrativo sobre o cigarro

O cigarro não faz mal

O cigarro não faz mal. Fumo há trinta e cinco anos e isso não impede que eu aproveite os prazeres da vida. Hoje acordei e como sempre fiz os meus exercícios matinais, pois sou um homem saudável. O único problema foi que perdi o fôlego e voltei para a casa.
Na hora do almoço resolvi ir na melhor churrascaria da cidade, com as carnes mais saborosas da região, pena que há algum tempo eu perdi a percepção do sabor.
À noite fui a um barzinho com os meus amigos para relembrar os velhos tempos, mas passei a maior parte do tempo do lado de fora, graças à lei anti fumo.
A minha vida é muito feliz, pena que não sei até quando a viverei, pois estou com câncer de pulmão. Viu? O cigarro não faz mal.

O Reencontro

O velho solitário andava pela rua em um dia nublado e escuro como sua alma. Já não era crente em nada, não sorria mais como no auge de sua juventude. Ninguém na vizinhança encontrava uma explicação para tantos sonhos e sorrisos perdidos. Caminhava solitário até aquela criança lhe pedir colo. Logo um sorriso tímido destacou-se em sua face. Era o reencontro com a felicidade perdida.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Espiral

A espiral como definição matemática é uma curva que gira em torno de um ponto central, afastando-se ou aproximando-se deste ponto, dependendo do sentido em que se percorre a curva e para Rodrigo van Buytten não era diferente. Nascido em um pequeno vilarejo do interior da Holanda via desde pequeno os dias se desenrolarem e chegarem ao mesmo ponto comum após vinte e quatro horas, o nascer do Sol. Mas Rodrigo não gostava do Sol, preferia o frio das paredes de pedra de sua imensa casa, a maior do vilarejo, que seus pais deixaram como herança. A família esquecerá dele por achá-lo estranho e inconveniente, principalmente por seu cesticismo e as suas respostas lógicas para tudo.

Os números eram a vida de Rodrigo e os teoremas e fórmulas suas amantes inseparáveis. Na escola era visto como o nerd, rico e sem amigos, nada o machucava, nada o ofendia, nada o incomodava, pois ele sabia que amanhã, estaria no mesmo lugar, ouvindo as mesmas baboseiras, na pior das hipóteses voltaria ao início de um novo náutilus.

A natureza era algo que para van Buytten podia ser explicado pelo código binário, ciclos das estações do ano, seca e cheia, épocas de reprodução, nascimento e morte. Ele dominava todas as variáveis, ou quase todas. Ele nunca entendera como um ser humano podia sair ou romper o seu ciclo de vida para extender outro ciclo de vida, que variável era essa que era tão mutável, tão ardente, tão... metamórfica. Todas as razões a cada dia mudavam e se modificavam, sem uma lógica aparente, ele não conseguia entender.

Certo dia, após a morte de seu último mordomo, Rodrigo precisava comprar maçãs em um dia nublado, tão feio quanto seu espelho. Foi quando avistou uma moça destraída, cantarolando para si mesma e andando com uma cesta de flores. Ela parecia diferente, o dia feio não tirava sua beleza, não parecia que sua pele refletia a luz emitida mas que nascia de seu olhar e de seu lindo sorriso. Rodrigo parou aonde estava e voltou para casa, olhou para o velho espelho e percebeu ele estava mais belo.